Demorei um pouco pra escrever esse post porque, por ser minha primeira vez vivenciando algo assim, quis saborear esse jantar frio até o fim pra saber quando começou e terminou. Mas acho que nem sei mais responder essa pergunta, já se passou uma semana e sinto que estou bem, apesar das memórias ainda tocarem. Sem mais delongas, eis ai o relato de uma luteira de primeira viagem (ai que coisa horrível).
sugestão de música para ouvir enquanto lê
Eu estava sozinha em casa, quando minha mãe me mandou mensagem 19:55 da noite dizendo que meu pai tinha recebido uma ligação falando que minha bisa - que estava muito doente e debilitada, sem nem conseguir mais falar - estava sem sinais vitais. Isso foi 16 de agosto, no momento que eu recebi a mensagem e respondi, a primeira coisa que eu consegui fazer foi pegar meu crucifixo, me ajoelhar e começar a agradecer enquanto vazavam litros de água salgada dos meus olhos. No momento eu me senti meio esquisita por estar agradecendo que minha bisa havia falecido, logo eu que amava tanto ela - mas por ela ter sofrido tanto semanas antes por conta dessa enfermidade, senti que a alma dela pôde enfim encontrar a misericórdia e pagar um purgatório aqui na terra.
Foi minha primeira vez rezando o Ofício das Almas. Eu estava andando tão devagar pela casa, como quem faz um esforço mortal. Chorei a noite inteira até 1 da manhã, horário em que fui dormir. E tudo o que eu conseguia pensar é "e eu ainda nem estudei para operações unitárias". Quando me perguntaram como eu estava me sentindo, eu não sabia dizer, porque o luto é um grande misto de sentimentos que não dá pra calcular em um só roteiro, mas que é sentível e entendível para quem já passou. O mais engraçado de toda essa situação era que, no dia seguinte, um amigo muito caro para mim ia completar 17 anos. Sete dias depois, eu tive que escolher entre ir para o aniversário dele ou para a missa de sétimo dia da minha bisa - eu fui para a missa, dava tempo que ter ido para o aniversário dele mas eu estava triste e morrendo de cólica, então eu apenas chorei de dor, tristeza e culpa quando cheguei em casa. A vida e a morte coincidindo no mesmo dia e horário, e não havia nada que eu podia fazer.
Essa semana eu me senti completamente invisível, revogada; acho que isso me ajudou a lidar com o luto mais rápido (?). Não sei dizer, a tristeza logo se manifestou na raiva que eu passei a sentir por aquele lado problemático da família, que não fizeram questão de se fazerem presentes no velório da própria mãe. Foram dias melancólicos, tristes, onde muitas ideias para posts surgiram mas que nem todas puderam se concretizar - mas que nada se compara ao sentimento vazio da saudade, do amor que permaneceu comigo enquanto a doadora foi embora. Tive apoio, claro, e sou culpamente grata aos que fizeram questão de se importar comigo enquanto eu fingia em meio a aulas chatas que só me davam mas vontade de dormir e chorar.
Ainda consigo chorar lembrando dela, nesse momento escrevo essas coisas sem sentido em meio a lágrimas. Isso significa que eu fui amada por ela, e eu fico feliz por saber que ela se foi deixando memórias lindas de seu sorriso para outras pessoas. Minha amada bisa sempre foi muito alegre, mesmo quando estava aos poucos perdendo sua lucidez e ficando com os olhinhos turvos, e seu sorriso permanecerá sempre nos corações de todos que tiveram o imenso prazer de terem suas mãos "mordidas" por ela (entre aspas, porque ela é muito boazinha e nem tinha dentes direito para morder). Gostaria de ter passado mais tempo com ela, mas a dor teria sido maior.
- Eu te amo eternamente, minha Alicinha. Sei que Nossa Senhora ouviu minhas preces e agora te levou para a Maracangalha que tanto cantávamos contigo. Não sei como continuar isso sem chorar ou como terminar lindamente, só sei dizer que eu sou grata por todo o amor que foi manifestado em mim por meio de suas risadas e piadocas. Não morreste, mas viveste para a vida eterna. Obrigada pelo seu amor, pelo seu cheiro, pela sua sapatilha e pelas suas gaiatices.
isso me fez chorar bastante, não queria dizer que acho lindo então vou dizer que foi tocante, porque é a verdade; me sinto tocada pelo seu amor,
ResponderEliminar"Não vem da morte minha aflição. A morte é mais leve que uma pluma. Já a responsabilidade de viver é mais pesada do que uma montanha... Só a versão dos vivos permanece" a sua versão da sua bisa está eternizada em lindas palavras, mas morre em tantos sentimentos, vive e morre e renasce e sobrevive; mas não some, ela nunca irá sumir.
"Precisava do milagre: que o irreversível não seja uma palavra tão sem volta." quando a morte cobra, desejamos um só momento para terminar de aproveitar a vida, mas o que aconteceu já aconteceu, agora ela descansa.
"O tempo, inabalável na mansa malha dos dias e das noites, nunca ofega. Inspira e expira o ventre onde tudo se cria. A mais sutil mudança na pedra, o deslocamento da menor partícula de ar divisível, o mínimo escorrer das águas, a insignificante transformação humana se dão nas tramas airadas do tempo. O tempo flutua invisível e em espesso presente. Nada apodrece sem ele. Nada floresce. Nada se torna amável. Nenhum ódio viceja. Nenhuma umidade seca. Nenhuma sede cede. As tempestades não inquietam nele ventos, as avalanches não podem soterrá-lo, a perplexidade não o paralisa, o mal não o ameaça e o bem não faz com que se demore. Mas eis um acontecimento, um único acontecimento, captura o tempo e o aprisiona." o tempo te levou ela mas também foi o tempo que te trouxe ela e tudo de bom que ela causou em você.