barra de pesquisa

quinta-feira, 30 de julho de 2026

minha fomo da profundidade

 Na mídia chamada "performática", é muito valorizada as coisas essencialmente bonitas que carregam consigo a profundidade de uma caverna enorme do minecraft, aquela onde há espaço de sobra pra explorar e monstros para combater. Diários com textos profundos e escritas bonitas, poesias sem rima ou ritmo, pinturas com títulos bonitos de geralmente uma palavra, discos de vinil - essas e tantas outras coisas geram em mim um grande sentimento que agora é delicadamente dito como "fomo".
 FOMO, ou Fear ou Missing Out, é uma sigla em inglês que se popularizou muito nas redes sociais esse ano, especificamente no queridíssimo twitter, que livremente significa "medo de ficar de fora". De acordo com a minha pesquisa super rasa, isso se caracteriza como uma patologia psicológica KKKKKK mas a gente acaba não levando esse termo com seriedade, tornando-o apenas uma gíria popular mesmo. É claro que também há casos super extremos, considerando também a influência das redes sociais nisso e mostra a importância de um profissional para tratar desse problema caso se torne um caso mais sério, mas esse post não veio abordar sobre isso.
 Contextos onde essa palavrinha é bastante utilizada (especialmente por essa quem vos fala rs) é tipo:
- ai, que fomo que eu não fui naquele show!
- fiquei com fomo desse povo que [fez tal coisa, ou foi pra tal lugar]
 Fomo, fomo, fomo... esse sentimento me persegue tanto! Nunca pensei que iria me resumir tanto a uma simples expressão, e eu sinceramente tenho quase certeza de que isso não é algo bom. Às vezes, quando sinto que não estou aproveitando bem a vida que me foi concebida como dom, eu sinto fomo de absolutamente tudo - fomo de sair para lugares conhecidos e desconhecidos, fomo de praticar hobbies novos e velhos, fomo de comida... fomo de tantas coisas contáveis e incontáveis. E no meio de tantas fomos, existe uma que anda me assolando até no momento em que eu estava criando esse blog e me preparando para escrever: a fomo da performance profunda.
 No meio de uma mídia que gosta de dar nome pra tudo, com certeza esse sentimento já deve ter alguma nomenclatura por aí, mas basicamente essa fomo que eu sinto é justamente o pensamento de que eu não estou sendo "profunda o suficiente". Ou, como também pode ser apelidada, "performática o suficiente". Minha fomo de viver vem da fomo da performance, porque quando eu me submeto a uma performance, consequentemente eu experimento uma vida. Óbvio que é algo fútil, mas a questão não é essa performance por performar; apesar dessa palavra ter perdido completamente o seu significado, eu literalmente AMO performar. E sabe por que? Porque eu estou vivendo.
 Mas essa performance também acaba sendo, por exemplo, uma letra bonita, um sketchbook desorganizado mas com os desenhos aleatórios especificamente bem posicionados, um journal ou um blog bem decorados, em um texto sobre uma pauta profunda. Em meio a tantas coisas únicas para o autor e tão bonitas, eu acabo ficando com uma insegurança de não estar sendo "única o suficiente", como se minha personalidade fosse tão rasa que eu não conseguisse preencher um espaço com algo que eu gosto, que eu penso genuinamente; como se tudo o que saísse de mim não fosse digno o bastante para ser exposto porque não esbanja uma performance bonita e profunda. Mesmo que eu esteja performando só pra mim, eu acabo não gostando quando me deparo com tanta singularidade em um monte de informações de outras pessoas.
 E olhando agora, isso é tão besta. Justamente, não é pra ser algo único? Não é pra ser eu? Caramba, quando foi que eu comecei a basear a MINHA profundidade na performance alheia? Pois é, esse temor do primeiro degrau faz com que eu acabe me escondendo por vergonha, vergonha de ser rasa demais. Vergonha por não conseguir expor com complexidade o mais fútil dos problemas que se passa em minha mente.
 Eu quero combater esse medo, porque mesmo que eu realmente tenha a profundidade de um pires em 99% das ocasiões, essa meio que é quem eu sou. A fomo de ser alguém profunda, que aborda pautas bonitas com palavras sublimes provavelmente não vai sair de mim tão cedo - na verdade, a fomo de TUDO não vai sair de mim tão cedo assim, até porque na verdade, isso é meio que natural do ser humano. Quando eu acabo me deixando moldar pelo o que os outros podem ou não achar de mim, eu me torno rasa por mais que eu não queira, mesmo que tem um brilho azul meu ali por debaixo dos panos. Eu quero ser eu, quero exalar meu eu, ter meu cheiro, meu choro, meu pensar, minha caligrafia e minhas ideias. Isso é tão simples, como o simples se tornou complicado?
 Não quero morrer como uma fotocópia, eu quero ser meu próprio espetáculo com minha própria performance, mesmo que não seja atraente o bastante. Eu quero ser mais eu.

3 comentários:

  1. oi eu me identifiquei
    muito claro pra mim que a popularizção do "fomo" tem impactos negativos na nossa percepção de interações sociais, pra mim é tipo o que aconteceu com hiperfoco porém mais voltado pro sofrimento, vamos assim dizer, e eu acho que sofrimento e profundidade são coisas que meio que mesclaram na minha cabeça
    é na glamourização da profundidade que eu acabo por pensar que a mais embasada e sofisticada criação é pautada no sofrimento, o que tem de mais profundo e bonito do que sofrer?
    acho que esse comentário ficou muito eu eu eu eu eu, mas eu só queria deixar claro que eu entendo ta amiga socorro parece q vc roubou as palavras da minha cachola mds devolve

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. NOSSA SIM! as vezes infelizmente chega num ponto onde a gente pensa que até o nosso sofrimento não é profundo o bastante, ou melhor, "performático" o bastante.
      gente essa cultura ta sendo tao normalizada que é o que causa esse medo em mim, vamos voltar a colocar os pingos nos is e parar de tirar palavras do seu devido contexto </3

      Eliminar
  2. É um texto bastante interessante.
    Consigo compreender o receio de que não está fazendo algo de produtivo com a própria vida ou que, quando está se fazendo, não está fazendo bem o bastante. Acredito que a solução seja entender que a qualidade e sentido das ações são construídas com base em valores subjetivos e pessoais que não necessariamente precisam corresponder a uma noção preestabelecida do que se é bom. Se você está feliz com que faz então está ótimo.

    ResponderEliminar