De uns tempos pra cá, em momentos que eu realmente me prontifico a limpar o armazenamento do meu celular, me deparo com fotos antigas de 2024 para trás e vejo que eu realmente mudei não só de aparência, mas também de mente. Mudanças assim geralmente são boas, onde você percebe que você melhorou, e as mudanças que eu percebo em mim comparada com minha versão de alguns anos atrás realmente me alegram.
O que mais me pega dentre essas mudanças é a forma que eu comecei a pensar sobre meu cabelo, sobre o impacto dele em mim e a mudança drástica de opinião que eu tive em relação a ele. No final da pandemia, mais ou menos entre 2022 e 2024, eu passei pela pior fase da minha autoestima: eu me comparava muito com outras meninas e passava camadas e camadas de base na tentativa de mudar completamente a essência do meu rosto, quando eu na verdade me tornava cada vez mais feia quando passava um reboco que claramente não era do meu tom de pele.
Uma das coisas que mais me incomodava na minha própria aparência era o meu cabelo. Na época, ele estava num tamanho médio e eu tinha cortado um curtain bangs horrível, que todos os dias de manhã cedo era queimado com uma prancha quente. Eu não conseguia gostar dele de jeito nenhum e eu o tratava como se ele fosse algo separado do meu corpo (não sei explicar, é tipo eu sou uma vida, ele era outra e a gente não era compatível e por isso que eu odiava tanto ele entende?). Eu fazia de tudo pra tentar gostar dele, principalmente queimar ele com a prancha quase todos os dias, ocasionando em pontas queimadas e um cabelo pedindo socorro; mas no final das contas, nada adiantava, eu não conseguia me amar e não conseguia amar meu cabelo.
Em 2024, minha mãe sugeriu que eu fizesse botox no cabelo pra deixar ele liso, já que eu queimava ele todo dia e isso não tava fazendo bem. Eu aceitei, fui pra cabeleireira perto de casa e passei uma tarde inteira sendo submetida a produtos capilares e conversas com uma loira risonha e um gay estereotipado. Enquanto todo esse processo engraçado acontecia e eu via os cachos sobreviventes indo embora e ficando lisos, eu senti uma coisa tão estranha dentro de mim. Parecia um luto. Percebi que, na verdade, o que me incomodava era que eu não queria odiar o meu cabelo, mas eu não conseguia me ver com ele daquela forma.
Quando acabou tudo e eu pude ver meu cabelo inteiramente liso, me senti pior ainda. Um desconforto total, como se aquela não fosse eu, como se eu tivesse sido substituída por uma cópia que claramente não era a verdadeira. E o pior era que eu não sabia dar nome pra esse desconforto, eu não conseguia dizer pra minha mãe o quanto eu tinha odiado aquilo na minha cabeça, eu só conseguia falar coisas do tipo "parece que uma vaca lambeu!" e "mas vai ficando mais natural, né?". E apesar de ela sempre tentar me tranquilizar falando que nos primeiros dias realmente fica estranho, com o passar do tempo eu continuei me sentindo desconfortável com essa peruca na minha cabeça. Não melhorou nada, eu continuava vendo meu cabelo como algo separado de mim.
À medida que eu fui me convertendo e mudando minha visão sobre mim, quando comecei a me cuidar mais e parar de viver ao lado de coisas que claramente não me faziam bem, os espelhos se tornaram menos dolorosos de serem vistos. O cabelo incomodava menos, porque eu passei um tempão sem mexer nele e comecei a tentar aceitá-lo do jeito que ele era, fazendo só coisinhas de garota como dormir de meia pra ele acordar com uma texturização bonita. Basicamente, entrei num processo de transição. Até que em 2025, em um momento onde eu olhava cortes de cabelo no pinterest, resolvi fazer um acordo com a minha mãe e pedi permissão pra cortar do jeito que eu quisesse caso eu passasse pra federal.
Eu passei, e prontamente minha mãe me levou pra uma amiga dela pra cumprir o combinado. Cortar meu cabelo curtinho era um desejo desde 2020, claro que os cortes foram mudando ao longo do tempo mas as tesouras nunca deixaram de me seduzir. Foi um processo rápido e divertido, diferente de como foi no botox. O resultado? CLARO que foi diferente também, meu Deus acho que nunca vou me esquecer da sensação de me olhar no espelho e me sentir a menina mais linda do mundo só porque cortou o cabelo. Cortar ele foi uma das melhores decisões da minha vida porque eu finalmente me senti uma só com algo que é completamente natural do meu ser. Ele faz parte de mim, finalmente eu pude dizer que ele era meu. Olhando assim, é algo pequeno, mas depois de tanto tempo me odiando e me martirizando por conta disso, ter a sensação de finalmente me sentir eu por completo foi algo que me mudou completamente. Mais do que alguém novo, era alguém que estava escondida há muito tempo e estava esperando para se soltar.
Não cortei de novo desde esse dia, decidi deixar ele crescer para ver no que dá. E honestamente? Sinto que estou na minha melhor fase capilar (tirando o fato de que ele tá caindo, eu preciso cuidar dele melhor </3). Minha identidade está aos poucos sendo moldada, e o meu cabelo tem uma grande influência nela porque mostra a relação que eu tenho comigo mesma. Hoje em dia, meu cabelo é uma das coisas que eu mais amo em mim mesma, e acompanhar o crescimento dele de uma forma tão singela faz meu coração pular de alegria.
Podemos ver por aí quanto um cabelo consegue moldar uma identidade, e quero falar aqui de maneira especial sobre a identidade feminina. A forma como vemos nossos cabelos, sobre como cuidamos e como amamos ele molda muito quem nós somos, e tudo isso reflete nele. Nossos cabelos não devem ser algo separado de nós, mas sim o nosso reflexo, nosso "eu". É incrível como algo tão pequeno pode causar grandes impactos na autoestima de uma pessoa. Eu fico muito tocada ao falar disso, apesar de ser algo tão banal. Meu cabelo me ajudou a moldar minha identidade, quem eu sou, a forma que eu me vejo, e eu finalmente posso dizer que eu e ele não somos mais separados como 2 e 3. Agora somos um, e eu agradeço muito por não ter surtado e raspado minha cabeça (apesar de que eu amaria me ver carequinha rs).
Ainda pretendo cortar ele de novo, mas dessa vez eu quero deixar ele livre pra ser selvagem do jeito que ele é e do jeitinho que eu amo.
verdade seja dita: cada dia que passa a sra fica mais bonita ainda =)
ResponderEliminarTE AMOOO!! </333
Eliminarmds eu me relaciono super com absolutamente tudo que ta escrito aqui
ResponderEliminaracho que o cabelo é uma grande metafora sobre a nossa identidade, e a gente carrega ele consigo a todo momento, cortar ou deixar crescer sempre vai ser marcante porque é como as pessoas te percebem sei la
ai voce é e sempre foi muito bonita pra ficar se comparando com outras meninas, mas acho que no fundo comparação não tem nada a ver com beleza
faz tempo q eu li mas tava pensando no que comentar pra deixar claro que eu li entao nao sei se ta fazendo sentido, nao gosto de colocaar ponto final nos comentarios ai fica uma bagunça
EliminarMEU DEUS SIMMMM, por isso é algo que mexe muitoo com a gente, cabelo não guarda só memorias como diz aquela trend antigona do ttk, mas tambem guarda identidade, quem voce é
Eliminarah e eu vi seu comentario a um tempao tambem ok é porque eu so consigo responder no pc